Escravo do Elogio, por Wellington Balbo

Renato começava a se destacar no palco da vida.

Eram aplausos, elogios, tapinhas nas costas, bajulação…

Não tardou para que o pomposo rótulo de estrela aparecesse como uma espécie de sobrenome.

Sua opinião era sempre respeitada, suas frases tornavam-se chavão e seu comportamento começou a ser imitado por infindável número de pessoas.

Logo, Renato por ser tão requisitado começou a sentir-se o Dono do Mundo.

Passou a considerar-se insubstituível.

Um “Escolhido”, era assim que se intitulava.

Embriagado pelos elogios, passou a ter devaneios, julgava-se infalível e queria moldar todos a seu modo.

Quem não pensasse como ele estava errado.

Quem não lhe imitasse estava “fora de moda”.

Seu jeito de falar – O Melhor.

Sua maneira de ser – A mais Adequada.

Seu sorriso – O mais Bonito.

Suas frases prediletas eram:

– Eu disse, eu avisei.

– Se todos fossem como eu o mundo estaria melhor.

– Para as coisas darem certo, vocês têm que ser como eu sou.

Não percebeu que assim perdia sua identidade e dava largo passo à loucura.

Algum tempo depois, o povo e a mídia elegeram outro ídolo.

Renato ficou órfão da bajulação, mas não perdeu a pose, continuou querendo moldar todos que o rodeavam.

Foi perdendo amigos, namorada, o emprego…

Familiares afastaram-se por não mais quererem conviver com sua arrogância.

Hoje, Renato tenta colher aplausos de seus colegas no hospício em que está internado…

O mundo aplaude, mas também apupa.

Os elogios são sementes lançadas ao solo de nosso coração que devem ser cultivadas com todo cuidado.

Quem, à semelhança de Renato, deixa-se arrastar pelos elogios perdendo as noções da realidade a considerar-se acima do bem e do mal, habilita-se ao desequilíbrio.

Mais prudente encará-los como estímulos para que melhoremos cada vez mais.

Diz o dito popular: canja de galinha não faz mal a ninguém.

Seguindo as recomendações do adágio popular, nosso Chico Xavier, prudente como um sábio, dizia ser apenas uma formiguinha, das menores, que anda pela Terra cumprindo sua obrigação.

O médium agindo assim livrava-se dos inconvenientes de sentir-se a cereja do bolo.

Espíritos mais adiantados como Chico tem plena consciência do estágio evolutivo em que estão. Encaram, portanto, os elogios como estímulos para o prosseguimento de sua missão, nada além disso.

São muitos casos de gente que conheceu holofotes e aplausos e aprisionaram-se a eles.

Quando cessaram os tapas nas costas caíram em depressão.

Faltou a eles o reconhecimento de que somos uma formiguinha, das menores, que anda pela Terra cumprindo nossa obrigação.

Chico sabia disso.

Para nosso equilíbrio é bom aprendermos também.

Pensemos nisso

Focalizando o Trabalhador Espírita: Zelina Poinsignon

Entrevista por Cláudia Werdine, Madrid, Espanha, para o Notícias do Movimento Espírita

A entrevistada Zelina Poinsignon é uma brasileira nascida no estado de Tocantins  e que vive na Europa desde o ano de 1992. Reside presentemente em Luxembourg onde é presidente do Grupo Espírita Allan Kardec naquele país.  Iniciou-se no movimento espírita em Luxembourg, no ano de 2002,  quando conheceu o médium Divaldo Pereira Franco que,  inspirado por Joanna de Angelis,  a incentivou a fundar um núcleo espírita no país.

Prezada Zelina, poderia nos fazer sua apresentação pessoal?

Sou brasileira, nasci no Estado do Tocantins, mas morei em Goiânia dos 12 aos 21 anos, quando vim para a Europa. Atualmente moro em Luxembourg na cidade de Esch/Alzette. Sou casada com um Luxembourgeois, Jacques Poinsignon, e tenho dois filhos amados, Reyna e Kim Poinsignon. Trabalhei desde os meus 14 anos de idade e aos 16 anos estagiei na LBA/GO – Fundação Legião Brasileira de Assistência. Aos 16 anos na EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária através de um concurso público. Estudei um ano e meio na Universidade Católica de Goiás freqüentando o curso de FONOAUDIOLOGIA. Meu sonho é trabalhar com crianças deficientes mentais. Atualmente estou sem trabalhar, mais sempre exerci a profissão de empregada doméstica aqui em Luxemboug.

Como e quando conheceu o Espiritismo?

Conheci o Espiritismo no ano de 2000 quando um cunhado veio para Luxembourg e pediu-me que encontrasse um grupo espírita para ele continuar trabalhando, uma vez que era espírita no Brasil. Até então eu nunca ouvira falar na tal doutrina, não conhecia nem de nome Allan Kardec, Divaldo Franco, etc.. Nessa procura, encontramos no ano de 2001 em Liège –Bélgica, a União Espirita Belga. Fomos então e Liège e participamos de uma conferencia realizada por Divaldo Franco. Esse foi o meu primeiro contato com a Doutrina Espírita. Em seguida não consegui tirar da memória a pessoa de Divaldo, embora, naquela ocasião, eu não houvesse gostado nem um pouco dele!

Em 2002, Divaldo me telefona e pede-me para recebê-lo em Luxembourg, o que eu aceitei com imensa alegria, mas com muita preocupação, pois não havia ainda nenhum grupo espírita no país. Reuni então membros da minha família, alguns amigos e fizemos juntamente com Divaldo Franco, Tio Nilson e Claudia Bonmartin, o Evangelho no Lar no salão da minha casa. Esse foi um dia inesquecível. No dia seguinte, Divaldo informa-me que Joanna de Ângelis havia enviado-lhe e que eu deveria começar um grupo espírita no país. O restante vocês devem imaginar.

Poderia nos falar de sua trajetória pelo Movimento Espírita no Brasil e no exterior?

No Brasil não tive a oportunidade de participar de nenhuma tarefa especifica, já que descobri o Espiritismo aqui em Luxembourg. No entanto, desde que começamos um grupo espirita familiar em minha casa no ano de 2002, eu venho me dedicando ao Espiritismo com amor. Integrei-me no movimento espirita da Europa através do apoio que recebi da parte do JEAN PAUL – Presidente da União Espirita Belga e Elsa Rossi – Secretaria do CEI.- Conselho Espirita Internacional.

Quais as atividades que desenvolve no Movimento Espírita?

Todo inicio de trabalho é muito difícil, ainda mais quando temos que fazer a teoria e a prática ao mesmo, como é o meu caso. Desde o inicio começamos a estudar as obras de Allan Kardec e fomos aumentando nossas atividades com o trabalho mediúnico e, atualmente, também com Evangelização Infantil. Nosso querido Divaldo Franco, desde 2002, nos visita anualmente, nos brindando com oportunas conferencias. Ao longo destes anos, também recebemos a visita da Dra. Marlene Nobre, Raul Teixeira, Joselma Coelho, Sergio Thiesen, dentre outros. Em 2005 tivemos a grata satisfação de sediarmos a reunião do Conselho Espirita Internacional.

Quando e porque mudou-se para o exterior?

Como a maioria dos jovens brasileiros, tinha a ilusão de que ir para o exterior era uma grande idéia. Eu tive essa oportunidade em 1992 com a vinda de uma amiga para Amsterdam – Holanda. Meus objetivos eram continuar a minha universidade, o que não foi possível devido à língua e ajudar meus familiares financeiramente.

Conte-nos um pouco sobre o Grupo Espírita Allan Kardec de Luxembourg, sua criação, eventos já promovidos e a serem realizados em 2010.

É importante destacar que o trabalho do Grupo Espirita Allan Kardec de Luxembourg é extremamente voltado ao estudo e vivencia da Codificação. Conforme já contei, o Grupo nasceu em minha casa, com a visita do Divaldo Franco. Tivemos a grande oportunidade de começarmos com o valioso apoio do Divaldo, Jean Paul Evrard e em particular, Elsa Rossi e Nestor Masotti. Este apoio favoreceu sobremaneira à qualidade dos estudos e das atividades desenvolvidas. Baseado nisso podemos dizer que o nosso grupo está caminhando devagar mas seguro, confiantes que poderemos com esforço realizar um bom trabalho no país de Luxembourg e possibilitar a entrada de Jesus nos corações da população Luxembourgeoise, na qual nos consideramos integrados física e emocionalmente. Os Eventos realizados foram os que citamos anteriormente.

Somos bastante ambiciosos, embora não tenhamos pressa e acreditamos que o futuro definirá os rumos, mas, desejamos poder continuar organizando os eventos já realizados e abranger com seminários internacionais, Congresso Medicina e Espiritualidade e quem sabe, bem no futuro, um Congresso Mundial. Por que não sonhar? O nosso objetivo é continuar crescendo e avançando, como instrumentos de Jesus, para que Ele possa fazer da Terra um mundo regenerador através do trabalho de todos nós.

Em sua opinião, qual a importância da Evangelização Espírita Infanto Juvenil e o quais as dificuldades para a implementação desta atividade nos países europeus?

Pessoalmente, tendo recebido uma educação altamente moral e observando o quanto essa educação me salvou, me guiou, me orientou, me sustentou em vários momentos de decisão em minha vida, considero a Evangelização Infantil de extrema importância. Direi mesmo que ela é tão importante quanto à assistência médica e escolar, pois é a base, o alicerce de toda a vida moral e intelectual do ser humano. Começamos a Evangelização Infantil em Luxembourg em setembro de 2007. E desde o inicio tivemos o apoio da Claudia Werdine e Marileia Conde, apoio que agradecemos a Deus, pois sem essas irmãs jamais teríamos colhido os frutos que conseguimos. A maior dificuldade em Luxembourg é a falta de conscientização dos pais em dar prioridade à Educação Moral de seus filhos, ou seja, não se disponibilizam à levá-los ao Grupo Espirita. Temos crianças que choram de vontade de ir à Evangelização, mas a mãe ou o pai não as levam por negligência e por priorizarem ir ao Supermercado, à limpeza da casa, a festa de aniversario da amiga, ou outra, enfim. Como ainda não temos no grupo trabalhadores qualificados para as atividades voltadas à família, fica difícil o trabalho com a criança, pois deveríamos trabalhar com a família também. O País de Luxembourg é um país extremamente democrático, temos o direito a seguirmos qualquer religião, mesmo tendo no país a predominância do catolicismo. Graças à isso, nunca tivemos nenhum obstáculo à realização de nossas atividades, seja com a criança ou o adulto.

Os espíritas radicados no exterior, especialmente em países do primeiro mundo, dizem que a Doutrina Espírita é mais bem aceita a partir das explicações cientificas. Em sua opinião, porque esta preferência pela parte científica do Espiritismo?

Em Luxembourg existe uma coisa curiosa… Eles utilizam a ciência para se permitirem descobrir o Espiritismo, mais no fundo, no fundo, eles estão atrás de consolo, de ajuda.. Eu observo isso sempre que a Dra. Marlene Nobre, Dr. Sergio Thiesen, Divaldo Franco, Raul Teixeira, dentre outros, em suas palestras apresentam as duas partes, científica e religiosa, mas é exatamente na exposição religiosa, moral… o interesse e a emotividade tomam conta do público. Observamos também na qualidade das perguntas que são quase sempre direcionadas a assuntos de ordem moral. Então eu diria que, em Luxembourg, a ciência é apenas o meio pelo qual o cidadão Luxembourgeois, incluindo as nações estrangeiros que vivem aqui, utilizam para descobrir os princípios divinos ou leis morais.

Mas sabemos que é importante estudarmos todos os três aspectos da Doutrina Espírita, o científico, o filosófico e o religioso. Quais as principais dificuldades para abordarmos o aspecto filosófico e religioso no exterior, particularmente em Luxemobourg onde você vive?

A dificuldade que temos em introduzir o aspecto filosófico ou religioso está apenas na forma de apresentação. Temos que tirar a religiosidade e substituir por espiritualidade.

Seus comentários finais.

Agradecemos à oportunidade dessa entrevista e rogamos as bênçãos de Deus para que possamos juntos com todos os irmãos espíritas continuarmos executando a nossa tarefa modesta, aonde fomos chamados a plantar, no momento aqui no país de Luxembourg.

Jornal da ABI – Março de 2010, por Paulo Chico

Centenário de nascimento de Chico Xavier é festejado este ano com o lançamento de filmes no cinema e dvds documentais. A data comemorativa dá mais visibilidade e gera a expansão do mercado de publicações – jornais e revistas – que divulgam a doutrina espírita. É hora de conhecê-las melhor.

Dia 2 de abril de 1910. Francisco de Paula Cândido nasce na cidade mineira de Pedro Leopoldo. Morto, aos 92 anos, atendia pelo nome Chico Xavier. Pois é justamente na data em que completaria 100 anos – a primeira sexta-feira de abril de 2010 – que o mais popular médium brasileiro volta à vida. Reencarna nas telas do cinema. A estréia do filme que conta sua histórialança novas luzes sobre a trajetória do homem que deu voz a tantos outros. E traz à cena, mais uma vez, a diversidade religiosa do Brasil. País católico por formação, mas cuja prática, desde sempre, cultiva o sincretismo. Uma das correntes com maior número de adeptos é justamente o espiritismo. Prova disso é que, além das fronteiras dos cultos ou sessões, faz tempo que os princípios da doutrina de Allan Kardec ganharam as ruas, em páginas de centenas de publicações. Elas são muitas. Jornais e revistas, títulos normalmente vendidos em bancas. Outros, apenas distribuídos em associações religiosas. Alguns dispõem de serviço de assinatura e sites, atualizados e com moderno arquivo digitalizado. Neste mês de março, como não poderia deixar de ser, Chico Xavier foi capa de praticamente todas essas edições. Algumas dessas publicações são mais antigas que o próprio médium, transcendem seu centenário. É o caso da revista Reformador, que surgiu como jornal, em 21 de janeiro de 1883, e passou a ser órgão institucional da Federação Espírita Brasileira, desde a sua fundação, no dia 2 de janeiro de 1884. É daqueles casos raros de publicações periódicas que surgiram no século XIX e circulam até hoje.

“O Reformador” foi fundado por Augusto Elias da Silva, um fotógrafo português radicado no Rio, com recursos retirados de seu próprio patrimônio. A redação funcionava em seu endereço de residência e trabalho, na Rua da Carioca, 120, 2º andar. Começou com limitada

tiragem, com quatro páginas. Hoje, temos 30 mil exemplares encaminhados, sem ônus, a mais de 12 mil casas espíritas do Brasil, a sócios e assinantes”, explica o Editor Altivo Ferreira, destacando que a proposta da revista, que não conta com publicidade mas divulga

obras editadas pela Federação, é publicar artigos e matérias sobre o espiritismo e o movimento no Brasil e no exte-rior. Para isso, conta com uma equipe no Rio, constituída por um diretor, um editor, três redatores, um jornalista responsável e um secretário, além de diagramadores e revisores. A editoração é feita no parque gráfico da Federação. A pauta é constituída por artigos de colaboradores permanentes e voluntários, observados os princípios espíritas. “Ela é feita com o objetivo de levar o conhecimento aos adeptos e simpatizantes da doutrina, e à sociedade em geral, sem qualquer preocupação de

fazer proselitismo”, destaca Altivo.

No entanto, ele reconhece que o momento é amplamente favorável à divulgação

do kardecismo: “O próprio mercado de publicações espíritas experimenta um boom, tendo

em vista a expansão dessa doutrina nos últimos tempos, o que pode ser constatado pelo grande interesse que o espiritismo tem despertado no público em geral, podendo ser dadas como exemplo as comemorações do centenário de nascimento do Chico Xavier. Além disso, o preconceito que sofríamos foi em grande parte combatido pela presença

da temática espírita em novelas, programas de televisão e filmes.”

PAUTA FACTUAL, MAS COM FOCO NO ESPIRITISMO

Outra expressiva publicação do segmento é o Correio Espírita, jornal mensal que circula praticamente em todo o Brasil. Mais precisamente, com a venda direta nas bancas, ao preço de R$ 1,50, está presente nas capitais de nove Estados, além de algumas cidades do interior, com tiragem média de 15 mil exemplares. “Nossas matérias são factuais, mas sempre voltadas para a ótica espírita, inclusive fazemos questão de fundamentar os conceitos nas obras básicas da doutrina de Allan Kardec. Existem também algumas abordagens como

suicídio, aborto, eutanásia e tabagismo. São temas polêmicos, sobre os quais procuramos elucidar os leitores”, afirma Marcelo José Gonçalves Sosinho, jornalista responsável do Correio Espírita e professor universitário de Comunicação Social, também do Rio. Mantido pelo Centro Cultural de mesmo nome, o Correio é jovem. Foi fundado em 3 de outubro de 2004, e seu crescimento dá noção exata do poder de fogo desse mercado. Inicialmente, eram apenas dez páginas, com periodicidade bimestral. Depois, as dez páginas tornaram-se mensais, expandindo-se logo para 12. Atualmente, circula com 16 páginas.“O espiritismo está sendo muito badalado. Na verdade, todo mundo quer saber algo mais sobre de onde veio, onde está e para onde vai. Dentro do tripé ‘Filosofia, Ciência e Religião’, o espiritismo explica tudo, consola e elucida os corações, acredita Marcelo, acrescentando que o jornal conta com publicidade, ainda que com ressalvas. “Não anunciamos tabacos, bebidas alcoólicas, motéis e qualquer tipo demisticismo. Através do setor comercial, temos também permutas”.

Em números oficiais, no Censo 2000, foram computados 2.337.432 espíritas no Brasil, o que corresponde a 1,37% da população. A região que teve mais adeptos foi a Sudeste, com 1.417.752, e o Estado com maior número de espíritas foi o de São Paulo, com 760.882. Mas esses números são relativos. Na ocasião da pesquisa, o entrevistado não tinha como opção de resposta o espiritismo. Quem era espírita marcava o X em ‘Outras’ e só alguns especificavam sua prática. Por isso, a crença de que esse número, sobretudo quando somado ao dos simpatizantes de Kardec, seja bem maior. Até mesmo pela razão de que, com o tempo, figuras como Chico Xavier e Bezerra de Menezes romperam a barreira do preconceito e são admiradas por pessoas de todos os credos. “Existem várias revistas espíritas. As mais tradicionais são O Reformador, órgão oficial da Federação Espírita, e a Revista Internacional do Espiritismo, sediada em Matão, São Paulo. Temos também a Universo Espírita, Ser Espírita, Revista do Espiritismo, todas elas vendidas em bancas. A Folha Espírita é o mais tradicional e mais antigo jornal, mas só circula em casas espíritas, principalmente em São Paulo. Existe também o Correio Fraterno, de São Paulo, com circulação nos centros espíritas locais. A nossa proposta diferenciada,

no Correio Espírita, foi captar o público espírita e também o não espírita. Por isso fomos para as bancas”, diz Marcelo José. Há exemplos de publicações que já nasceram no formato digital. É o caso da revista O Consolador, que foi ao ar pela primeira vez em 18 de abril de 2007, com atualização semanal exclusivamente na internet. Com acesso livre, não tem formato impresso nem é enviada aos leitores. “A revista não publica anúncios. Sustenta-se com recursos de seus fundadores”, diz Astolfo O. de Oliveira Filho, Diretor de Redação. Prestes a completar três anos, os números de O Consolador impressionam.“Já somamos 3,5 milhões de impressões de páginas e 658 mil downloads de textos publicados, com acessos em 95 países”, enumera ele, que também é editor do jornal mensal O Imortal, de 16 páginas e vendido por R$ 1,50.

MAIOR CURIOSIDADE AJUDA A DERRUBAR PRECONCEITOS

Citada como referência entre as publicações do gênero, a Folha Espírita é produto da FE Editora Jornalística desde 18 de abril de 1974, quando foi lançada pelo Deputado Freitas Nobre, destacado jornalista de São Paulo que chegou a liderar a bancada do antigo PTB na Câmara dos Deputados. Do início nas bancas, o jornal investe hoje nas assinaturas anuais. “As matérias são abordagens, sob o ponto de vista espírita, de fatos e tragédias do cotidiano. Nossa venda de publicidade é mínima. Este ano, porém, o movimento está mesmo em evidência. Temos sido solicitados para dar depoimentos à mídia, pelo nosso trabalho de pesquisa sobre a mediunidade do Chico, desenvolvido em conjunto com a Associação Médico-Espírita de São Paulo, que resultou em A Vida Triunfa, livro que aborda 45 casos comprovados”, diz Ana Carolina Severino, gerente da publicação, que em 2004 passou por reforma gráfica pela passagem dos seus 30 anos em circulação.

Aparecido Belvedere é Diretor da Casa Editora O Clarim, uma das mais antigas do ramo espírita, responsável pelo jornal O Clarim e pela Revista Internacional de Espiritismo, ambos fundados por Cairbar Schutel, falecido em 30 de janeiro de 1938. São 104 anos de atuação, tendo como meta a divulgação dos preceitos do espiritismo. “No jornal, fundado em 15 de agosto de 1905, damos matérias doutrinárias espíritas e o movimento nacional. Na revista, cujo primeiro número circulou no dia 15 de fevereiro de 1925, o foco são as matérias doutrinárias, algumas com versão em espanhol, sobre os movimentos espíritas nacional e internacional.

E utilizamos os dois periódicos para divulgar os 140 títulos de livros espíritas por nós editados”, destaca Belvedere, lembrando que ambas as publicações não são vendidas em bancas, e sim nas livrarias das casas espíritas. Elas contam com cerca de 14 mil assinantes em todo o Brasil, e até no exterior. “O preconceito na mídia está diminuindo, mas alguns veículos publicam matérias nem sempre com a pureza desejada. Ainda existe uma confusão de interpretações entre o que defende o espiritismo com outras doutrinas ou seitas, que praticam o mediunismo não à luz de Kardec. Daí a necessidade de existirem veículos que publiquem matérias, de preferência da atualidade, sempre à luz da doutrina fundada por ele em Paris, em 1857”, diz Aparecido Belvedere, que considera crescente o interesse pelas publicações espíritas pela grande divulgação pela mídia não-espírita em torno do filme sobre Chico Xavier. “Não acho que sejamos vítimas de preconceito, mas sim de um pouco de desinformação, inclusive por parte de grandes veículos. Há entidades, como a Federação Espírita, que procuram transmitir aos jornalistas esclarecimentos sobre as questões espíritas, sobretudo quando é publicado algo errado. Muito comumente confundem o espiritismo com a umbanda ou outras crenças parecidas, igualmente respeitáveis. Nem todos sabem ainda, por exemplo, que as palavras ‘espiritismo’, ‘doutrina espírita’, ‘espiritista’ e ‘espírita’ foram criadas por Allan Kardec. Assim como ‘centro’ ou ‘casa espírita’ são os nomes dos locais destinados à divulgação deste pensamento”, concorda Flávio Olive, redator do Serviço Espírita de Informações-Sei.

A idéia do Sei surgiu pela primeira vez em 1953, numa das reuniões realizadas em torno de Chico Xavier. O médium mineiro transmitiu a Jayme Rolemberg de Lima, um dos fundadores do Lar Fabiano de Cristo, o desejo do espírito Emmanuel, seu mentor, de se criar um meio para dar apoio aos pequenos jornais e programas espíritas de diferentes emissoras de rádio do interior e das grandes cidades. Assim, Emmanuel teria sugerido a elaboração de um boletim que, além de notícias, pudesse comentar matérias da grande imprensa e apresentar artigos de companheiros sobre temas doutrinários. Assim nasceu o informativo, primeiramente em português e esperanto e que é editado há alguns anos também em espanhol e inglês. Publicado originalmente pelo Lar Fabiano de Cristo, desde o ano passado passou para as mãos do Conselho Espírita Internacional, órgão ligado à Federação Espírita com circulação gratuita, via Correios e web.

O auxílio de dois seres de luz Usando um jargão do universo espírita, eles bem que poderiam ser considerados dois ‘seres de luz’. Certamente para este jornalista, a quem ajudaram a iluminar o caminho da apuração desta reportagem. Partiram deles dados fundamentais e a indicação de fontes e contatos. Todos absolutamente naturais. Tratamos aqui apenas de telefones e e-mails, que fique bem claro. O primeiro deles é Paulo Roberto Viola, 63 anos, advogado, jornalista e escritor, com diversos livros publicados, como Dom Pedro II e a Princesa Isabel, Uma Visão Espírita-cristã do Segundo Reinado, lançado em 2008 na Academia Brasileira de Letras, e que já se encontra na terceira edição. Também são dele Bezerra de Menezes: O Abolicionista do Império e Barão de Santo Ângelo, O Espírita da Corte, este lançado na ABI em novembro de 2009. Enquanto prepara seu próximo livro – Princesa Isabel, Uma Viagem no Tempo, também com inspiração espíritacristã –, Viola cuida da estréia da Revista do Espiritismo, cujo lançamento, ocorrido em 28 de março, durante seminário do médium Divaldo Franco, reuniu cerca de 3.500 pessoas. “Podemos dizer que o ‘produto’ espírita está em expansão. Produtores, editores, roteiristas e diretores estão cada vez mais surpresos com toda a explosão de audiência diante das produções que abordam este universo. Este ano, não só nosso popstar Chico Xavier está atraindo multidões, com o filme sobre sua vida e obra, que promete recordes de bilheteria. Também teremos uma telenovela de fundo espírita, às 18h na TV Globo, e, ainda, o filme Nosso Lar, baseado no livro psicografado por Chico Xavier, que entrará em cartaz no segun-do semestre. Em toda a grande mídia se ouve falar de espiritismo. Pelos menos uma operadora de tv a cabo já examina a possibilidade de inclusão de um canal específico em sua grade”, diz Viola. A produção Nosso Lar, citada por Viola, tem estréia prevista para setembro. Conta a história de um médico que acorda no mundo espiritual após a sua morte e acompanha sua jornada, desde os primeiros dias, numa dimensão de dor e sofrimento, até ser resgatado para uma cidade espiritual cujo nome intitula o filme, sob a direção de Wagner Assis. O elenco conta com Renato Prieto como André Luiz, Othon Bastos, Rosanne Mulholland, Fernando Alves Pinto, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Clemente Viscaíno e participações especiais

de Ana Rosa e Paulo Goulart.

Este último integra também o elenco de Chico Xavier, O Filme, dirigido porDaniel Filho e que reúne estrelas como Tony Ramos, Christiane Torloni, Luís Melo, Cássia Kiss, Giulia Gam e Letícia Sabatella, além de um impressionante Nélson Xavier, dando alma a Chico na última das três fases retratadas de sua vida (de 1969 a 1975). O médium mineiro também é interpretado por Matheus Costa (quando criança, de 1918 a 1922) e Ângelo Antônio (1931 a 1959). Perguntado se a mídia reflete de forma equilibrada a diversidade religiosa no Brasil, Paulo Roberto Viola adota um tom moderado, apesar de crítico. “Temos que entender que se a natureza não dá saltos, a evolução também não. A mídia reflete o nosso atual estágio cultural. Tivemos seis séculos de ‘Santo Ofício’. a dissolução dessa nuvem sobre a Humanidade nunca poderia correr de pronto. A Inquisição acabou o século XIX, mas ainda permanecem aguns de seus remanescentes. Desde o tempo de Machado de Assis, que tiespiritismomainha aversão ao espiritismo, por confundi-lo com feitiçaria e magia, sofremos discriminações, mas isso está mudando. Em breve, veremos autoridades da República e da vida civil participando de cultos, quando até recentemente só víamos essas personalidades em ofícios de uma só religião. Afinal, Dom Pedro II lutou muito para que o Estado brasileiro fosse laico”, diz Viola, para quem o Brasil possui cerca de 25 milhões de adeptos ou simpatizantes do espiritismo, constituindo o terceiro maior contingente religioso do País. Oceano Vieira de Melo foi o segundo guia desta matéria. Especialista no campo editorial espírita, alimentou a pauta com dados. “São mais de 200 publicações em todo o País. Todas têm publicidades de livros, psicografados ou não, mas sempre espíritas. Existem cerca de 5.600 títulos sobre a doutrina em circulação”, informa Vieira. Alguns de seus números, no entanto, inflacionam os apresentados por Viola. “Somos oito milhões de espíritas. Ou 30 milhões, se incluirmos na conta os simpatizantes. Espíritas são aqueles que praticam o espiritismo codificado por Kardec. Acreditam na vida depois da morte, na reencarnação, na pluralidade dos mundos habitáveis, e na evolução em cada encarnação, seja aqui na Terra ou em outros planetas. Sua evolução espiritual está em amar

seus semelhantes, na benevolência e prática da caridade sem esperar retorno. Somos cristãos e temos Jesus como modelo e guia para chegar até Deus”. E os simpatizantes? Qual o perfil deste grupo? “São aqueles que têm outra religião, mas vão ao centro espírita, tomam passe, lêem

um livro espiritualista pensando tratar-se de livro espírita… Às vezes, assistem a palestras no centro, mas seguem na sua religião. Ou seja, não querem compromisso, querem continuar na sua, obedecendo aos dogmas e rituais de sua tradicional formação familiar. A pessoa com esse perfil acredita em milagres, e acha que quando morrer vai para o céu ou inferno. Na realidade, é mais espiritualista, e não espírita. Os espíritas geralmente são pessoas de classe média e média alta.

Assinam jornais diários, revistas semanais e têm tv por assinatura”, descreve Oceano Vieira, ele próprio um simpatizante convertido. “Eu estava católico por tradição familiar e descobri que era espírita ao ler os livros de Kardec. O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns e A Gênese. Aí tudo ficou claro para mim. Foi notiespiritismo que eduquei minha sensibilidade para a arte do cinema, da música e todas as outras que engrandecem o ser humano como ser imortal”. Aos 59 anos, Vieira atua no ramo cultural cinematográfico. Fundou em

1985 o Jornal do Vídeo. Em 1999, lançou a Versátil Home Vídeo, para distribuir em dvds os filmes humanistas, de arte, brasileiros e, sobretudo, filmes europeus e espíritas. “Minha função é fazer documentários biográficos em vídeos de personalidades espíritas. É um campo vasto, quase inexplorado. Em abril, o CanalBrasil vai exibir nossos filmes, que retratam Chico Xavier, Eurípedes Barsanulfo e Divaldo Franco. Como espírita, sinto falta de matérias que falem de maneira respeitosa sobre os religiosos e as religiões em geral. A mídia costuma comparar os religiosos e as religiões

com os aproveitadores da credulidade do povo. Há muitos pastores sérios que nunca mereceram sequer uma linha nos jornais”, lamenta. Na verdade, reconhece Oceano Vieira, os maiores divulgadores do espiritismo no Brasil são mesmo os departamentos de jornalismo das televisões,

principalmente a TV Globo, e a chamada grande imprensa. “Com exceção da Veja, que costuma debochar dos espíritas. Chico foi o maior fato jornalístico do Brasil do século XX. Pena que alguns

colegas o vissem apenas como uma pessoa exótica, pois usava peruca, falava de amor ao próximo e era ligado a uma filosofia religiosa e científica. E muitos deles se preocuparam com o que

a Igreja Católica poderia dizer”, afirma. Vieira está envolvido em Chico Xavier, O Filme. “Levei a produção para conhecer o filho adotivo do Chico, assim como para mostrar a eles a simplicidade e a grandeza desse médium, que conheci pessoalmente em Uberaba, em 1984. Disse-lhes que Chico Xavier era maior do que eles imaginavam. Só se percebe sua grandiosidade quando se estuda ou pesquisa sobre ele. Disse ao Daniel Filho que ele tinha a grande oportunidade de fazer takes que o cinema nunca tinha feito. E que ele teria que assumir um risco, pois aquela cena seria algo

espiritual, que nenhum diretor jamais imaginara. Desejo que seu filme seja a maior bilheteria do cinema brasileiro este ano. Me arrisco até a prever uns cinco milhões de espectadores, mas pessoalmente acho que Nosso Lar tem tudo para ser o maior sucesso de todos os tempos. Quem viver verá”, aposta.

DVDS COMPLETAM O RESGATE HISTÓRICO

Exatamente com produção da Versátil, de Oceano Vieira, estão disponíveis no mercado três dvds sobre Chico Xavier, todos na linha documental. Pinga-Fogo com Chico Xavier recupera imagens

e áudio originais das duas participações do médium no programa da TV Tupi mostrado no filme. Chico Xavier Inédito: De Pedro Leopoldo a Uberaba reúne quatro filmes sobre o personagem, realizados em 1951, 1955, 1983 e 2007. Por fim, também está no mercado o dvd Saulo Gomes Entrevista Chico Xavier em 1968, que traz a sua primeira aparição de peso na televisão brasileira, gravada três anos antes da participação polêmica no Pinga-Fogo. Programa que, aliás, rendeu outro fruto. No dia 29 de março, Saulo Gomes lançou, em Ribeirão Preto, São Paulo, Pinga-Fogo com Chico Xavier. O livro, com organização do jornalista, traz a transcrição do programa. Em recente depoimento ao Jornal da Região Sudeste, Saulo recordou o seu encontro com o médium. “A missão parecia impossível. Vários repórteres, inclusive espíritas, tentaram, em vão, furar a grande barreira

que o separava da imprensa. Havia uma explicação para essa barreira. Chico, na década de 50, havia sido alvo de uma reportagem na revista O Cruzeiro, focalizando materialização de espíritos. Foi ridicularizado. Após tentativas frustradas, Chico aceitou conversar comigo, sem câmeras ou microfones. Segui para Uberaba com o caminhão de externa da Tupi, equipado com três câmeras e nove técnicos. Atendi a exigência e fui sozinho conversar com ele que, após a sessão, na Comunhão Espírita Cristã, me convidou para uma conversa, que começou às 22h30min e só terminou às 4 da manhã. Nos conhecemos, nos confraternizamos, e fechamos o compromisso de, na noite seguinte, gravarmos a sessão espírita e realizarmos a entrevista”. A reunião foi gravada com Chico

psicografando mensagem assinada por Emmanuel. Terminado o encontro, teve início a tão sonhada entrevista.“Mostrei, pela primeira vez na televisão brasileira e ao público espírita e não-espírita o Chico Xavier psicografando uma mensagem. O impacto da reportagem, em 1968, foi extraordinário. Grandes órgãos de imprensa repercutiram o acontecido. Depois disso, ele

passou a participar de alguns programas, sempre em minha companhia, inclusive em 1970, no Cidade contra Cidade, apresentado por Silvio Santos”, destaca Saulo Gomes.

Um Personagem Desconvertante Missão difícil a de Marcel Souto Maior. Contar a trajetória do médium responsável pela publicação de centenas de livros, que venderam cerca de 50 milhões de exemplares no Brasil, afora as inúmeras traduções. Chico Xavier esquivava-se da responsabilidade por tamanha produção. Nunca admitiu ser o autor de nenhuma dessas obras. Por isso mesmo, jamais recebeu um centavo por elas. Doava todos os direitos a instituições de caridade e organizações

espíritas. Tal como as cerca de 10 mil cartas por ele psicografadas, os livros seriam de autoria dos mortos, dizia. Diretor do programa Profissão Repórter, da TV Globo, Marcel, sem o recurso da mediunidade e apenas com o seu talento de jornalista, arriscou-se a escrever As Vidas de Chico Xavier. Referência, o livro serviu de base para o roteiro de Marcos Bernstein para o filme a cargo

de Daniel Filho.”Atuei como consultor e, confesso, quase não tive trabalho. Desde o primeiro tratamento estava tudo ali. Ambos acertaram no tom e na estrutura do texto, já de primeira. Costumo dizer que não terei aquela vaidade de autor: a de ouvir espectadores saírem das”.

salas de exibição e dizerem que o livro é muito melhor do que o filme! As obras são similares. Fico feliz. Dá orgulho ver a história de Chico tão bem retratada, com tanto equilíbrio e honestidade”. Apesar do interesse pelo tema, Marcel não acompanha o mercado editorial espírita. “Não costumo ler essas publicações. É difícil fazer uma avaliação responsável. O que posso dizer é que conheço jornalistas da área e respeito muiorto a postura deles. Eles estudam o espiritismo com cuidado e estão sempre atentos a um dos dogmas da doutrina: o da ‘fé raciocinada’. São críticos e não

ficam presos a preconceitos que, muitas vezes, cegam e paralisam”.Como era a relação de Chico Xavier com a mídia? “Ele viveu diferentes fases na sua relação com a imprensa. No início de

sua trajetória, foi alvo de investigações jornalísticas quando lançou o primeiro livro atribuído a espíritos, a coletânea de poemas Parnaso de Além-Túmulo. E foi vítima da dupla David Nasser

e Jean Manzon em reportagem irônicailustrada por fotos humilhantes na revista O Cruzeiro, durante o processo movido contra ele pela família do jornalista Humberto de Campos, morto e um de seus ‘psicografados’. Em 1971, esta relação mudou radicalmente quando surgiu diante das câmeras da extinta TV Tupi no programa Pinga-Fogo, episódio bem explorado no filme de Daniel Filho. Era um fenômeno de audiência na época. Chico foi sabatinado por espíritas e não-espíritas por mais de três horas, ao vivo. Falou de temas variados, de drogas a homossexualidade, e se transformou numa celebridade nacional”, relata Marcel Souto Maior. Nos anos 1980, Chico foi homenageado em especiais da TV Globo, dirigidos por Augusto César Vanucci. Respeitado, ganhou espaço em programas populares, como o de Gugu Liberato, e em revistas de celebridades, onde aparecia

ao lado de visitantes como Xuxa e Roberto Carlos. “A história de vida dele, coerente do início ao fim, derrubou preconceitos e gerou credibilidade. Escreveu 420 livros, vendeu mais de 25 milhões de exemplares em vida e doou a renda a instituições beneficentes. ‘Os livros não me pertencem.

Eu não escrevi nada. Eles, os espíritos, escreveram’, repetiu até morrer na cama estreita de seu quarto simples, em Uberaba, em 30 de junho de 2002. Aos que diziam que, cedo ou tarde, cairia desmascarado como fraude, afirmava: ‘Não vou cair, pois nunca me levantei’. Idoso, agradecia:

‘Graças a Deus, aprendi a viver apenas com o necessário’. Por essas e outras, Chico é um enigma que desconcerta os céticos”, define Marcel.

(Texto recebido via email de Vice Presidente da Rádio Rio de Janeiro vicepresidente@radioriodejaneiro.am.br)

Há Exatos 30 Anos, na Globo

email enviado por Samuel Lima

No dia 23 de maio de 1980, às 21 horas, a TV Globo levou ao ar para todo o Brasil, dirigido pelo uberabense e espírita Augusto César Vannucci, um dos mais belos programas já produzidos na televisão em homenagem a alguém. UM HOMEM CHAMADO AMOR, o nome do programa que surgia como apoio e divulgação à campanha do Prêmio Nobel da Paz para Chico Xavier.

O Especial emocionou o povo brasileiro.

Artistas dos mais expressivos do Teatro e da Música participaram com grande brilhantismo e, entre eles, destacamos Tony Ramos, Elis Regina, Lady Francisco, Nair Bello, Glória Menezes, Lima Duarte, Paulo Figueiredo, Vanusa, Eva Vilma, Felipe Carone, Roberto Carlos…

Gilberto Gil compôs em homenagem ao Chico a música No Céu da Vibração, que Elis Regina interpretou como só ela poderia ter feito.

Ao final, Chico psicografou diante das câmeras belíssima página de Emmanuel, aqui inserida, sintetizando o tema abordado ao longo de todo o programa, que, diga-se de passagem, alcançou altíssimos índices de audiência.

Eis a mensagem de Emmanuel:

Amigos, Jesus nos abençoe.

A inteligência humana conseguirá atingir as maiores realizações.

Poderá conhecer a estrutura de outros mundos.

Construir no piso dos mares.

Escalar os mais altos montes.

Interferir no código genético das criaturas.

Decifrar os segredos da vida cósmica.

Penetrar os domínios da mente e controlá-los.

Inventar os mais sofisticados aparelhos que propiciem o reconforto.

Criar estatutos para o relacionamento social e transformá-los, segundo suas próprias conveniências.

Levantar arranhacéus ou materializar as mais arrojadas fantasias.

Entretanto, nunca poderá alterar as leis fundamentais de Deus e nem viver sem amor.

O jornalista Arthur da Távola, sob a inspiração da Campanha do Prêmio Nobel a Chico Xavier, escreveu nas páginas do jornal O Globo, em 26 de maio de 1980, o que consideramos um dos melhores artigos produzidos sobre o médium na imprensa leiga.

A FIGURA DE COMUNICAÇÃO DE FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

Independente de qualquer posição pessoal, crença ou conviccção, a figura de comunicação de Francisco Cândido Xavier percorre décadas da vida brasileira, operando um fenômeno (refiro-me à comunicação terrena mesmo) de validade única, peculiar, originalíssima. Não vou, portanto, por falta de autoridade para tal, analisá-lo do ângulo religioso e, sim, as relações de sua figura de comunicação com o público.

Com todos os significantes necessários a já ter desaparecido ou ter-se isolado como um fenômeno passageiro, a figura de comunicação de Francisco Cândido Xavier, no entanto, ganha um significado profundo, duradouro, acima e além de paixões religiosas, doutrinas científicas ou interpretações metafísicas.

A inexistência de um tipo físico favorecedor funciona como outro curioso paradoxo a emergir da figura de comunicação de Chico Xavier. Aquele homem de fala mansa, peruca, acentuado estrabismo, pessoa de humildade e tolerância, não configura o tipo físico idealizado do líder religioso, do chefe de seita, do místico impressionante.

A clássica barba dos místicos ou a cabeleira descuidada ou olhar penetrante e agudo dos líderes inexistem no visual de Chico Xavier, Acrescente-se a inexistência, em seu modo de vestir, de qualquer originalidade ou definição de estilo próprio, ainda que contestador dos estilos formais e burgueses.

Não tem, portanto, Chico Xavier, nos aspectos externos e formais de sua figura de comunicação, nenhum dos elementos habitualmente consagrados como funcionais ou impressionantes dos aspectos externos do grande público, elementos de comunicação incorporados consciente ou inconscientemente por figuras importantes nas religiões. Até a figura do Papa líder de uma comunidade religiosa, é envolta em pompa e festa, estratégia visual destinada à maior pregnância de sua mensagem e à definição de sua posição como símbolo. Nem mesmo a mais decidida modéstia e humildade pessoal de vários papas são suficientes para que a figura papal se desvista da pompa e simbologia relativas ao reinado que representa. Até nas religiões orientais, menos pomposas, as figuras líderes são cercadas da visão carismática do líder.

Francisco Cândido Xavier, porém, representa uma espécie de antítese vitoriosa da figura carismática. Não tem, do ponto de vista externo ou visual, nenhum elemento característico. Até ao contrário. Pessoalmente, é o anticarisma. Funciona como símbolo de negação de qualquer pompa ou formalidade, um retorno talvez à pureza primitiva dos movimentos religiosos.

E no entanto emerge da figura dele uma das mais poderosas forças de identificação da vida brasileira. Ele é uma espécie de líder desvalido dos desvalidos, dos carentes, dos sofredores, dos não onipotentes, dos despretensiosos, dos modestos, dos dispostos a perder para ganhar.

Curiosamente, tal posição é conquistada naturalmente e sem qualquer traço político direto de tomada de posição ao lado dos fracos num século em que a revolução social aparece como a tônica e como a grande aglutinadora dos movimentos humanos, inclusive os religiosos. Sem qualquer formulação política, sem qualquer mensagem diretamente relacionada com a exploração do homem, sem qualquer revolta direta e institucionalizada contra a miséria ou a injustiça, Francisco Cândido Xavier emerge com a força do perdão, da tolerância, da fraternidade real, da fraqueza forte, da fé, da humildade e do despojamento erigidos como regra de vida, como trabalho efetivo da caridade; da não pompa; da não hierarquia; da não violência em qualquer de suas manifestações, mesmo as disfarçadas em poder, glória, secretismo, hermetismo, iniciação, poder temporal ou promessa de vida eterna.

A figura de comunicação de Francisco Cândido Xavier emerge, portanto, de uma relação profunda e misteriosa com um certo modo de sentir do homem brasileiro, relação esta ainda insuficientemente estudada ou conhecida até mesmo pelos que a vivem, comandam ou exercem. Até mesmo para ele, Francisco, deve haver muita coisa envolta em mistério, um mistério que os seguidores dele tentam definir e enchem-se de explicações científicas ou cientificizantes, religiosas ou religiosizantes, psicológicas, parapsicológicas ou parapsicologizantes.

Para tal contribui, além do aspecto misterioso da psicografia e da relação com os que morreram, a igualmente misteriosa aura de paz e pacificação que domina os que com ele se relacionam pessoalmente ou via meios de comunicação, na relação cuidada e cautelosa, equilibrada e pouco frequente por ele mantida com a televisão, na qual aparece muito pouco, uma vez por ano no máximo e sempre para grandes públicos.

Além da aura de paz e pacificação que parte dele, há um outro elemento poderoso a explicar o fascínio e a durabilidade da impressionante figura de comunicação de Francisco Cândido Xavier: a grande seriedade pessoal do médium, a dedicação integral de sua vida aos que sofrem e o desinteresse material absoluto. A canalização de todo o dinheiro levantado em direitos autorais para as variadíssimas atividades assistenciais espíritas dão a Chico Xavier uma autoridade moral – tanto maior porque não reivindicada por ele – que o coloca entre os grandes líderes religiosos do nosso tempo.

Quem se aproximar da atividade real de assistência material e espiritual da comunidade espiritualista brasileira verificará que ela é íntegra e heróica, tal e qual o que há e sempre houve de melhor em assistência de religiões como a católica e a protestante (entre nós), prodígios de dedicação, silêncio e humildade que justificam as vidas dos que delas participam.

Síntese final:

A integridade pessoal; a íntima relação entre a pregação e a própria vida; a honestidade de seus seguidores; a ausência completa de significantes externos; o contato com o mistério; a ausência de qualquer forma de violência em sua figura e pregação; a nenhuma subordinação a hierarquias aprisionantes; a discrição pessoal; a nenhuma procura de poder político, temporal ou econômico para o desempenho da própria missão; as formas originais de organização interna do seu movimento, sem personalismos ou autoritarismos – tudo isso gera uma figura de comunicação de alta força, mistério, empatia e grandeza moral, principalmente se considerarmos que enfrentou e ultrapassou tempos diferentes do atual (no qual o ecumenismo felizmente impôs-se). Antes, manifestações como as dele eram removidas como bruxaria ou perigosa, ou bárbaras ou alucinantes quaisquer manifestações místico-religiosas diferentes ou discrepantes da religião da classe dominante.

Livro: 100 Anos de Chico Xavier – Fenômeno Humano e Mediúnico

Carlos A. Baccelli

LEEPP – Livraria Espírita Edições Pedro e Paulo

O Desafio do Centro Espírita

Richard Simonetti
Richard Simonetti

por Richard Simonetti

1 –     O centenário do nascimento de Chico Xavier levou a Doutrina Espírita para a mídia, com intensidade inimaginável. Nunca se falou tanto de Espiritismo nos órgãos de comunicação. Como você vê essa exposição em termos de economia para o movimento?

Sem dúvida, algo muito positivo. Sem irreverência, diria que mesmo depois de “morto” Chico continua fazendo pelo movimento espírita mais do que todos os espíritas juntos. O problema é “capitalizar” esse benefício.

2 –     O que seria essa “capitalização”?

Fazer repercutir essa exposição na mídia em dinamização do Espiritismo no Brasil, a partir de pessoas que se interessem pelos seus princípios e se integrem no Centro Espírita, a célula básica.

3 –     Qual a dificuldade maior nesse sentido?

As limitações das casas espíritas. Um data show, um boletim informativo, uma biblioteca, uma livraria, um clube do livro espírita, palestras bem fundamentadas, serviço de atendimento fraterno e passes magnéticos, cursos de Espiritismo, reuniões mediúnicas com observância dos princípios doutrinários, tudo isso é básico para acolher as pessoas que hoje nos procuram.

4 –     Considerando que a maior parte dos Centros Espíritas é de pequeno porte, com poucos colaboradores, não seria exigir demais de seus dirigentes?

Não estamos confundindo efeito com causa? Não será o Centro pequeno por falta de iniciativa dos dirigentes?

5 –     A que atribuir essa falta de iniciativa?

Um sacerdote católico estuda no mínimo quinze anos no seminário para ordenar-se; algo semelhante com os pastores protestantes das igrejas tradicionais. Aprendem a falar em público, a administrar a igreja, a motivar os fiéis… No movimento espírita, alguém entusiasma-se com práticas mediúnicas, funda um Centro Espírita, constrói uma sede, não raro com seus próprios recursos, e torna-se presidente vitalício, sem nenhum preparo para o cargo, sem conhecimento doutrinário, sem noções de administração de uma casa espírita. Resultado: estagnação.

6 –     Uma escola para dirigentes não desembocaria no profissionalismo religioso, contrário aos princípios doutrinários?

A ideia não é uma escola para dirigentes, mas que os dirigentes frequentem a escola, isto é, que estejam sempre atentos à necessidade do estudo, do aprimoramento de sua atuação, da frequência aos cursos hoje ministrados pelos órgãos de unificação, empenhados em oferecer aos dirigentes a orientação necessária para que realizem um bom trabalho.

7 –     O que pode ser feito?

Em primeiro lugar, superar a pretensão da autossuficiência. Geralmente dirigentes assim sentem-se meio “donos da verdade”, recusando-se a admitir suas próprias limitações. Tendem a centralizar tudo em suas mãos, nada fazem e nada deixam fazer, “ancorando” o “barco”. O dirigente deve ser um “leme”, estabelecendo as diretrizes gerais, conforme a orientação doutrinária, e deixando os companheiros navegarem ao influxo de suas iniciativas.

8 –     E como transformar o âncora em leme?

Está sendo lançado pela CEAC-Editora, de Bauru, meu livro Por uma vida melhor, onde, a par de algumas reflexões sobre os caminhos que nos levam a uma existência  saudável e feliz, e, sem pretender “falar de cátedra”, ofereço aos confrades algumas sugestões para que o Centro Espírita cumpra suas funções de divulgação doutrinária e ajuda aos necessitados de todos os matizes.

O CPF

Ary Brasil Marques
Ary Brasil Marques

por Ary Brasil Marques

O governo brasileiro criou um instrumento perfeito que lhe permite controlar a vida de todos nós e com o seu uso, através de cruzamento de dados feitos por modernos computadores, arrecadar cada vez mais tributos.

Pelo CPF, as pessoas passam a ser um número, que dá ao Fisco condições de avaliar as riquezas que cada um possui. O aumento patrimonial de cada contribuinte é avaliado e conferido pelas informações bancárias, dos registros de imóveis, dos cartões de crédito, dos Detrans, das financeiras, das agências de viagens e turismo, das bolsas de valores e de outros meios. Com isso, o Leão, nome com se chama o monstro arrecadador do imposto de renda, cruza os dados informados por cada um dos declarantes no final de cada ano e tem condições de cobrar dos indefesos portadores do CPF o imposto de renda que determina a Lei. O valor arrecadado teoricamente serviria para o desenvolvimento do país, e aumenta a cada ano. Infelizmente dois grandes fatores impedem que esse objetivo não seja alcançado em toda a sua plenitude: a sonegação da maioria dos contribuintes e o uso criminoso dos valores arrecadados em benefício de governantes sem escrúpulos.

Na teoria, é difícil fugir das garras do leão, e isso só acontece porque a fiscalização ainda não é perfeita e também é influenciada pela corrupção de ambas as partes.

O dia que o governo alcançar uma maneira de aproveitar o progresso da tecnologia e da informática com perfeição, não mais será possível a sonegação existente até hoje.

No plano espiritual também existe um instrumento de controle individual, com a diferença que as informações de cada espírito são armazenadas em arquivos chamados registros akásicos.

Ao contrário do CPF terreno, os registros de cada um de nós não permitem falhas ou sonegações de espécie alguma. Esses registros ajudam a criatura a se desenvolver e a evoluir, utilizando todos os atos bons e maus de cada um, que são ali registrados e que acompanham os espíritos em todas as suas encarnações. Os espíritos superiores se servem desses registros não para punir mas para ajudar a cada um na sua trajetória ascencional rumo à perfeição.

Lá não se pode esconder nada, sonegar informações pessoais  ou burlar o semelhante, e Deus permite a cada um de seus filhos ter na própria consciência as linhas mestras desses registros. Dessa forma, ninguém pode alegar ignorância e praticar o mal, pois dentro de si mesmo a pessoa sabe qual o caminho certo a seguir.

Resumindo: Na Terra, o CPF nos controla e nos coage. Na espiritualidade, nossos registros nos impulsionam a crescer e a buscar o caminho do amor, com a aplicação da Lei de Ação e Reação, e cada um vai recebendo de volta aquilo que plantou, aprendendo com esse instrumento maravilhoso a evoluir.

SBC, 01/05/2010.

A Força do Exemplo

Richard Simonetti
Richard Simonetti

por Richard Simonetti

Vós sois a luz do Mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. Nem se acende uma candeia* para colocá-la debaixo do alqueire*, mas no velador*, a iluminar todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus (Mateus, 5:14-16).

– Tenho sério problema com minha esposa. Acha que Espiritismo é coisa do diabo.

– Ela conhece a Doutrina?

– Que nada! Nem se dá ao trabalho de folhear jornais e livros que levo para casa.

– Sugeriu que participe de uma reunião doutrinária para superar a impressão negativa?

– Não admite sequer falar a respeito e acha ruim quando saio. Sou obrigado a dar uma “engrossada” para que respeite meus compromissos.

– Experimente instituir o Culto do Evangelho no Lar. É valiosa oportunidade de trocar idéias em torno das lições de Jesus, harmonizando o ambiente doméstico.

– Conheço minha mulher. Acabaríamos em pancadaria verbal.

– E o relacionamento entre vocês?

– Ela é feminista de carteirinha. Vive a proclamar igualdade de direitos, esperando que eu assuma encargos domésticos. Comigo não! Mulher tem que ser submissa ao marido. Por isso brigamos muito.

– Experimente exercitar cooperação, compreensão e tolerância, como ensina o Espiritismo.

– Aí será demais! Se demonstrar fraqueza ela toma conta.

– É mais provável que com seu exemplo a esposa se convença de que Espiritismo é algo muito bom. Faz de você um verdadeiro cristão. Pense nisso…

* Candeia: Lâmpada rudimentar alimentada por óleo.

* Alqueire: Antigo recipiente que funcionava como medida para secos e molhados.

* Velador: Suporte para fixação da candeia. Candelabro.

EM TRINTA SEGUNDOS: RELIGIÃO

– Qual a melhor religião?

– Qual a melhor comida?

– Depende do paladar.

– Assim é a religião.

– Todas são boas?

– Sim, questão de opção.

– Então cada qual escolhe a que lhe agrade…

– Perfeito, desde que haja religiosidade.

– O que é isso?

– Vivenciar os princípios religiosos.

– De que forma?

– Aprendendo a servir.

– O que tem a religião a ver com isso?

– A religião é o caminho; servir é o caminhar.

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Espiritismo na Folha de São Paulo (26/04)

SUCESSO DO ALÉM – Obras Ligadas ao Espiritismo Aumenta Procura por Centros
Matéria do jornal Folha de São Paulo de 26 de abril de 2010 – Ilustrada.

Onda de Obras Ligadas ao Espiritismo Aumenta Procura por Centros e Ajuda Espíritas e Simpatizantes a “saírem do armário”.

Por Fernanda Mena Laura Mattos, da reportagem local.


O fenômeno de bilheteria do filme “Chico Xavier” e a onda de produções ligadas ao espiritismo, que têm marcado 2010, estão ajudando espíritas brasileiros a “saírem do armário”.

“O discurso de reconhecimento da doutrina e de figuras centrais do espiritismo vai ajudar muita gente a assumir que é espírita”, avalia Célia Arribas, socióloga e pesquisadora da USP, autora do livro “Afinal, Espiritismo É Religião?” (Alameda Editorial), com lançamento previsto para maio. “Usando uma linguagem figurativa, é possível dizer que eles vão sair do armário.”


Para Geraldo Campetti, diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), a difusão da doutrina realizada pelo filme, já visto por mais de 2 milhões de brasileiros, é um marco. “O espiritismo era um, antes de 2010, e será outro, após o final deste ano”, analisa.

“Esse impacto fica visível na crescente demanda por informações que, desde a estreia do filme, tem ocorrido nos centros espíritas de todo o país.”


Junte-se ao sucesso do filme a novela “Escrito nas Estrelas”, da TV Globo, que teve audiência média, nas duas primeiras semanas, superior à de suas antecessoras no horário. Na trama, o protagonista morre e segue o enredo como espírito.

Além disso, até o final do ano, devem ser lançadas uma minissérie na Globo e três filmes em que a vida após a morte ou a mediunidade tem papel principal. Entre eles, chega aos cinemas em setembro o filme “Nosso Lar”, baseado em livro homônimo de Chico Xavier, que já vendeu cerca de 2 milhões de exemplares desde sua primeira edição, em 1944.

Ser ou não ser


O sucesso de obras de temática espírita, no entanto, não pode ser explicado apenas com dados de pesquisas demográficas, que apontam existir no país cerca de 4 milhões de espíritas declarados. Segundo estimativa da FEB, somados praticantes e simpatizantes, esse número deve chegar a 23 milhões de brasileiros. Isso porque espiritismo não é uma religião proselitista. Logo, frequentar um centro espírita é diferente de ser espírita.

“Vou a um centro, mas também sou judia”, diz Sandra Becher, 30, na saída de uma sessão do filme de Daniel Filho.

Hoje, há cerca de 12 mil centros espíritas no país – número que dobrou na última década. Ainda assim, Luís Eduardo Girão, produtor associado de “Chico Xavier”, conta que o filme enfrentou dificuldades de financiamento “porque ainda existe a discriminação”.

Herança dos tempos em que praticar espiritismo era crime, como rezava o primeiro Código Penal do Brasil República, de 1890 – cujos efeitos práticos se estenderam até 1945. A saída encontrada pela elite brasileira, que traduziu a obra de Allan Kardec do francês para o português, foi a produção de uma literatura que introduzisse princípios espíritas numa linguagem romanceada, de maior penetração. Afinal, quem é que não quer saber como é a vida após a morte? Foi a popularização da chamada literatura espírita, estandarte das listas de mais vendidos, que abriu caminho para a boa performance do espiritismo no cinema e na TV.

“Este é um mercado que se tornou promissor economicamente”, explica Sandra Stoll, autora do livro “Espiritismo à Brasileira” (Edusp). “As produções cinematográficas têm apenas capitalizado um público simpatizante e predisposto, que é enorme.”


Centros espíritas são laboratórios de promoção de filmes


Produtores promovem pré-estreias especiais para adeptos da doutrina e estimulam estratégias de divulgação boca a boca.


Pesquisas de opinião com religiosos reorientam roteiros de filmes, em que simpatizantes atuam por trás e diante das câmeras Da reportagem local.

“Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito”, de 2008, se tornou um exemplo clássico de como obras ligadas ao espiritismo podem se tornar fenômeno de público, especialmente se contarem com o boca a boca dos adeptos da religião.

Projeto de um empresário de turismo de Fortaleza, o longa-metragem não investiu em publicidade e foi exibido em apenas 44 salas de cinema no país – lançamentos grandes costumam chegar a mais de 300.

O filme sobre o médico e político cearense do século 19, chamado de “Allan Kardec brasileiro”, surpreendeu grandes investidores do cinema ao atingir 505 mil espectadores e ter mais de 41 mil DVDs vendidos.

Espírita, Luís Eduardo Girão não se aventurou no cinema sem antes fazer duas apresentações laboratoriais em grandes eventos ligados à religião: o Fórum Espiritual Mundial, no Brasil, e Congresso Espírita Mundial, na Colômbia.

“Com a reação das pessoas, mudamos completamente o projeto e abandonamos a ideia de docudrama”, conta Girão, que criou a produtora Estação Luz Filmes e está filmando outro longa espírita, “As Mães de Chico Xavier”, além de ter se tornado investidor e produtor do filme de Daniel Filho.

Diretor-geral da Sony Pictures no Brasil, distribuidora de “Chico Xavier”, Rodrigo Saturnino conta que a bilheteria recordista foi também consequência de “um trabalho de divulgação com espíritas, como pré-estreias para dirigentes de entidades e divulgação via internet para os centros”.

Silvia Puglia, presidente da Federação Espírita do Estado de São Paulo, conta que houve uma verdadeira corrente entre os centros espíritas para divulgar “Bezerra de Menezes” e “Chico Xavier”. Ela foi convidada para uma das pré-estreias do longa de Daniel Filho dirigidas a entidades espíritas.

Estratégia semelhante será usada pelo longa “Nosso Lar”, baseado em livro de Chico Xavier e coproduzido pela Fox, a ser lançado em setembro.

“Estamos fazendo um trabalho junto aos centros espíritas. Teremos sessões especiais organizadas por essas entidades. Muitas delas já estão nos procurando e vão nos dar um grande suporte. O boca a boca entre espíritas é muito importante”, diz a produtora do filme, Iafa Britz, que tem no currículo os sucessos de bilheteria “Se Eu Fosse Você 1 e 2”.

Britz é judia e espírita. Já o diretor, Wagner de Assis, é católico e espírita. “Nós costumamos fazer obras com as quais nos identificamos”, conta a produtora.

Esse é também o caso de outro novo diretor de obras espíritas. Tomy Blazic dirigirá “Ninguém É de Ninguém”, baseado em livro da autora de best-sellers espíritas Zíbia Gasparetto. “As pessoas têm curiosidade de entender como o outro lado é”. Girão completa: “O gênero veio para ficar”. Reportagem de Laura Mattos e Fernanda Mena.

Acidente na Globo Torna Ator Espírita


Após acidente na Globo, Carlos Vereza se converteu ao espiritismo.

Intérprete de Bezerra de Menezes no cinema e de um espírito na atual novela das seis da Globo, Carlos Vereza, 69, é espírita desde 1990. À Folha, contou ter procurado um centro espírita após sofrer acidente de trabalho na Globo que o levou a ter labirintite e depressão. Leia entrevista com ele:

O ator Carlos Vereza, 69, recebeu apenas cachê simbólico para interpretar o protagonista do filme “Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito”. Espírita desde 1990, ele também está feliz com o papel do espírito de luz Athael na novela das seis da Globo, “Escrito nas Estrelas”. Em entrevista à Folha, o ator contou ter se convertido ao espiritismo após sofrer um acidente de trabalho na Globo.

“Eu não tinha nenhuma religião. Sempre acreditei em Deus, mas esse mundo era distante. Você chega ao espiritismo pelo amor, pela dor ou razão. Eu sofri um acidente de trabalho na Globo, um tiro, um efeito especial mal feito. Colocam pólvora no local e acionaram por um controle remoto. Era um seriado medíocre chamado Delegacia de Mulheres”, lembrou.

Vereza conta que seu ouvido interno foi atingido. “Fiquei com labirintite e tive que parar de trabalhar, o que me levou à depressão. Os médicos diziam que não tinha como resolver. Fui internado em várias clínicas. Procurei o centro Frei Luiz, indicado por uma tia católica que me disse que um primo havia sido curado lá de leucemia. Em sete meses, eles me curaram”, disse.

Depois disso, Vereza se tornou médium e é voluntário no centro até hoje. Ele acredita que o sucesso do filme “Bezerra de Menezes”, visto por mais de meio milhão de pessoas, abriu uma “corrente de obras espiritualistas”. “Se está tendo sucesso, e isso é lei de mercado, é porque as pessoas estão precisando. Os produtores fazem pesquisas e começam a perceber que o público precisa de um pouco de paz, de uma respiração”.

Sobre a novela, cujo protagonista morre no primeiro capítulo e segue como espírito na trama, Vereza disse que, até onde leu o roteiro, “está absolutamente fiel à doutrina espírita”.

Comentário


Ao final, não se aplaude o filme, mas a memória do médium Chico Xavier. Por Nina Lemos, colunista da Folha.

Na entrada da sala, cerca de 200 pessoas esperam agitadas. “Aqui é a fila do Chico Xavier?”.

A pergunta é feita a cada cinco minutos. Parece que vamos, de fato, encontrar o famoso médium para pedir um passe, uma carta psicografada. A cena ocorre num domingo no Shopping Frei Caneca, São Paulo.

Grupinhos de senhoras vestindo moletom chegam agitadas. A frequência do shopping, famoso por ser point gay, é alterada graças à magia do espiritismo. Meninos abraçados convivem em harmonia com senhoras em cadeiras de rodas conduzidas por suas filhas. Prova de que Chico Xavier, além de lotar cinemas, produziu o milagre da tolerância… O clima de centro espírita é reforçado pelas conversas na fila. Com ar de expectativa, os cinéfilos-espíritas falam sobre coisas do além. “Você já viu no Youtube a cena da morte dele, é chocante, aparece uma luz”, conta às amigas a dona de casa Valéria Pizzutti, 48, kardecista.

As conversas sobre as coisas que acontecem “do lado de lá” contagiam até quem não é espírita de carteirinha. “A gente sempre tem curiosidade sobre as coisas sem explicação, sou meio mística”, diz a cabeleireira Josefa dos Santos, 40.

Não estamos entrando para uma exibição comum, mas numa espécie de sessão espírita.

O clima de culto aumenta na sala de cinema lotada. Quando Chico Xavier reza, as pessoas rezam baixinho. Em outros momentos, sussurram músicas religiosas. A plateia vibra em cada cena engraçada. Mas, mais que isso, se acaba de chorar. De verdade. Na cadeira ao lado, uma senhora está aos prantos. Quando o espetáculo acaba, ele é aplaudido entusiasticamente. Não, não estamos aclamando o filme, mas sim Chico Xavier, e a possibilidade de ter explicação para aquelas coisas que acontecem “do outro lado”.

“Que coisa mais linda! Falaram que em toda sessão é assim”, comenta a vizinha de cadeira com sua amiga.

Na saída, o clima de alegre expectativa muda. Todos estão em silêncio. Respeitosos. Impossível não comparar isso com a saída de uma missa. Ou de um culto em um centro espírita de verdade. Mas, no fundo, não foi isso que aconteceu na sala de cinema do shopping?