Wellington Balbo (Bauru, SP)

Wellington Balbo (Bauru, SP)

As pessoas são sonhadoras no que concerne à relação afetiva. As histórias em quadrinhos e os desenhos representam com perfeição a ânsia humana na busca pelo par perfeito. A Cinderela que se encontra com o príncipe a vestir-lhe os sapatinhos da felicidade. A Branca de Neve que dorme no aguardo do herói que, intrépido, a salva da bruxa malvada. São sonhos, muitos sonhos…

Todos querem a felicidade e alegria proporcionada pelo príncipe ou princesa. Todavia, cogitamos da felicidade para nós, mas, e o outro? Será que cogitamos de fazê-lo feliz? Será que buscamos alegrar seus dias? Compreender suas limitações e apoiá-lo em suas iniciativas?

Novamente o famoso egoísmo humano a nortear as atitudes. Cogito de ser feliz, mas não de fazer o outro feliz. Muitos informam que a causa de sua infelicidade é o marido ou a esposa, considerando-se algemados pelo antigo amor, hoje temível carcereiro. Pedem separação, a convivência está sufocante. E saem intrépidos em busca do novo amor, talvez, quem sabe, a alma gêmea. Não raro encontram novas decepções, porquanto querem encontrar o outro não para evoluírem juntos, mas sim para sanar seus dilemas íntimos.

Poucos se atentam para a realidade: nosso objetivo na peregrinação terrena é a evolução como espíritos imortais que somos. A felicidade afetiva e conseqüente harmonia interior no tocante aos sentimentos está subordinada, principalmente, a nossa postura perante a relação. Se procurarmos olhar na mesma direção de quem está do nosso lado teremos dado grande passo em busca da relação afetiva sadia, sem cobranças descabidas e ciúmes doentios. Quando os olhos dos cônjuges estão focados num nobre objetivo comum, as dificuldades não atrapalham, ao contrário, tornam-se temperos a unir ainda mais o casal. Muitos casais depositam a culpa do declínio da relação nos problemas financeiros. Nada disso, embora as finanças decaídas possam trazer apoquentação, nada pode superar o olhar para o mesmo rumo.

E nessa questão que envolve o olhar dos cônjuges na mesma direção importante salientar a relação de Amélie Gabrielle Boudet e Allan Kardec.

Nove anos mais velha do que o professor Rivail, Amélie Boudet esteve em todos os momentos ao lado do marido na tarefa da Codificação do Espiritismo. A diferença de idade não atrapalhava, porquanto ambos estavam com os olhos na mesma direção. O casal francês também enfrentou problemas financeiros, mas superaram, os olhos estavam na mesma direção. Enquanto o professor Rivail trabalhava na contabilidade de algumas casas comerciais, sua esposa preparava cursos gratuitos que ambos ministravam em sua própria residência. Uma real demonstração de que a missão daquele valente casal estava ligada indelevelmente à educação.

A tarefa da Codificação Espírita foi espinhosa, Kardec foi vítima de calunias, mentiras e ingratidões, mas a esposa estava do seu lado. Ambos evoluíam juntos, apesar das dificuldades da caminhada, olhavam na mesma direção. No mundo contemporâneo  muitas relações se deterioram porque há uma inconveniente competição entre o casal. Discussões infindáveis em que um quer ser melhor, mais capaz, mais inteligente do que o outro. Imagine, caro leitor, que um casal, amigos de meus amigos, separaram-se porque a esposa tem um salário maior que o do marido, e ele, machista incorrigível não admite tal “afronta”. Amélie Boudet e seu esposo não competiam um com o outro, antes se admiravam e por isso apoiavam-se, buscando juntos a evolução, olhando, portanto, na mesma direção.

Ou encaramos o matrimônio como abençoada oportunidade de evolução, ou viveremos em constante praça de guerra com nossos “amores”, e se assim for, é melhor esquecermos o matrimônio e esperar nosso retorno aos Céus para os braços de nossa alma gêmea. No entanto, como sabemos que almas gêmeas no sentido de metades eternas não existem, ficaremos sós, aguardando a oportunidade de recomeço nos palcos do mundo, para então, quem sabe, aprender a compreender e encarar o casamento como importante cadinho depurador de nossas próprias imperfeições.

Pensemos nisso.

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